Blog pessoal, para divulgação de trabalhos literários.
Sexta-feira, Março 30, 2007
DROIT & CROISSANT
Lílian Maial
Quando nasci, não veio anjo nenhum,
só um tapa desses bem dados na bunda,
que era para eu já ir-me acostumando.
E houve quem dissesse: Chora, criança, que é sinal de saúde.
Minha mãe me achou muito feia,
meu pai me queria homem.
Só minha avó, escondidinha nos pensamentos,
me reservava um destino "droit",
que de "gauche" já bastavam o mundo e os anjos.
A praga de vó deu certo,
e a lagarta voou borboleta,
aprendeu a parir asas de não sei onde,
a se fantasiar de arco-íris e ver estrelas.
Tudo culpa de um vírus que peguei inda menina.
Todo mundo tinha catapora,
eu tinha poesia.
E tinha a bronca do tal anjo,
que chegou atrasado naquele Carnaval,
correndo que estava atrás das pernas todas,
de homens e mulheres,
que anjo não tem sexo.
Até hoje o caído me tenta,
me suborna com os croissants de Maria Antonieta,
mas eu estou mais para a rapadura de Maria Bonita.
Meu Deus, por que não me contaste,
se sabias que eu era Deus,
se sabias que eu era Mulher.
Meu vasto mundo é o universo,
não me chamo Raimunda,
não me chamo Rosa,
e minha rima é pobre,
meu vasto mundo é verso e prosa.
Eu não devia dizer a Drummond,
mas esse vírus não tem cura,
passa através da leitura,
se multiplica com um doze anos,
e bota a gente com jeito de solidão,
mas dá um barato dos diabos!
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postado por: Lílian Maial 7:32 PM Comments:
Sábado, Março 24, 2007
QUANTO VALE UM AMOR?
Lílian Maial
Você mal nasce e já começa a descobrir o mundo através das grades do berço. Vai crescendo, enfrenta a separação inevitável dos braços da mãe, enfrenta seu primeiro tombo, seu primeiro choque, seu primeiro dia de aula. Faz amigos (e alguns desafetos), aprende a ler e a escrever, aprende a defender suas idéias, aprende que somos feitos da mesma matéria, mas com valores e vivências diferentes.
Continua crescendo e aprendendo.
Tem crise de identidade na adolescência, descobre a diferença de sexos e oportunidades para cada um, descobre que o mundo sempre foi dos homens, porque as mulheres deixaram. E que os pais não são heróis.
Tem crise de escolha de carreira, crise de primeiro emprego (ou desemprego).
Defende seu time de futebol, seu partido político, sua forma de encarar a vida, suas convicções.
Está pronta, está formada, talvez tímida, talvez extrovertida, mas é você inteira.
Aí conhece o amor. Encontra aquela pessoa especial, aquela que não acreditava que existisse, aquela face inesperada, aquela voz, aquele beijo...
Aquele que desperta em você as sensações mais loucas, mais lindas. Aquele que ensina a você o que é poesia.
Tudo lindo, tudo novo, tudo maravilhoso.
Mas... a pessoa querida, amada, idolatrada, salve, salve, não tem lá as mesmas idéias que você. Pior! Não aceita, de maneira alguma, que você as tenha diferentes das dele. Vive desconfiado, inseguro, tentando depreciar o que você faz, diz e pensa, supervalorizando o que não tem tanto valor assim, para disfarçar suas próprias falhas.
E você sofre, ah, como sofre!
Sim, porque, em nosso meio, "ser mulher é ser renúncia, é aceitar aquilo que o parceiro oferece e ainda dar graças pela oportunidade de ter encontrado alguém tão incrível".
Coitadas dessas ¿zinhas¿ por aí, que ousam impor seu ponto de vista! São consideradas pessoas que não valem nada, mulheres mal amadas, insatisfeitas sexual e afetivamente, frias, desequilibradas. Até o século passado, eram loucas, mentalmente perturbadas, devendo ser afastadas do convívio de pessoas ¿normais¿.
À custa do sacrifício dessas e de outras tantas, que pagaram com o ostracismo, a difamação e, até mesmo, com a vida a ousadia de ter idéias e defendê-las, é que hoje posso escrever sobre esse tema, sem incorrer em abusos da lei dos homens (ao menos, sem ser penalizada).
Bem, voltando ao amor, e aí? O que acontece?
Você o ama, o quer, não pode ficar sem ele. Ele ama você, quer você, mas não aceita você. Agride e fere você em cada oportunidade que você lhe apresente sua maneira independente de ser.
Vai colocar na balança? Vai ceder e anestesiar a imensa ferida que irá se formar?
Não se iluda que essa anestesia nunca vá acabar. Vai sim! Mas, talvez, deixando seqüelas irreversíveis na sua alma de mulher.
Por um lado, você: mulher livre, independente, dona do seu nariz, acostumada a decidir, a trabalhar e ganhar seu sustento, habituada a comandar os rumos da sua vida, escolhendo o que serve ou não para si.
Por outro: ele, o amor, o fascínio, a aura de felicidade que você sempre sonhou.
Está disposta a pagar por ele qualquer preço? O quanto ele vale? Vale sua liberdade? Vale seu passado, suas vivências, suas amizades, seu próprio governo? Vale a troca do certo pelo duvidoso?
Ou você acredita no ¿felizes para sempre¿, numa época em que já somos carecas de saber que o máximo que vamos conseguir é o ¿que seja infinito enquanto dure¿?
Pense bem, pese prós e contras.
Nada, mas nada mesmo, vale você.
Você é a coisa mais importante da sua vida.
E você é isso, esse conjunto de características. Se mudar uma delas, seja pelo que for, já não é mais você.
E não se trata de ceder uma coisinha, para obter outras tantas. Trata-se de calar, de amordaçar, de abrir mão de toda uma luta de tantas mulheres que padeceram por seus ideais, para que você pudesse hoje chegar aonde está.
Então, toda vez que o amor bater à sua porta, cordeirinho, mas avançando lentamente, causando um desconforto que você não sabe explicar, mas que sente, e sente bem, investigue o lobo por baixo da pele desse cordeiro, veja suas reais intenções, antes de abandonar o projeto de mulher feliz e plena, para tornar-se companheira de conveniência, escrava pseudo-contemplada com a sorte grande.
Se o sacrifício não for tão grande assim, e a promessa de felicidade for, para você, palpável, tente fazer a escolha certa.
Mas, se a dor da perda da sua condição de livre e autêntica não tiver uma retaguarda que valha muito a pena, tenha consciência disso e a dignidade de dar a volta por cima e dizer NÃO.
Por que é que é você quem deve sempre ceder? Se ele a ama tanto assim, por que ele não aceita seu modo de mulher século XXI?
Quem sabe, com esse não, você não conquiste um espaço importante para as mulheres que ainda virão?
Dorian Gray vendeu a alma ao Diabo, pela juventude eterna (¿O Retrato de Dorian Gray¿ ¿ de Oscar Wilde). Você vai vender sua liberdade?
O amor vale muito sim, vale quase tudo, só não vale que você venda sua condição de MULHER, e com todas as letras em maiúsculo.
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postado por: Lílian Maial 8:19 PM Comments:
Terça-feira, Março 13, 2007
RE-VOLVER
Lílian Maial
No peito-húmus,
um músculo ávido de palavras.
Revolver a terra,
adubo em gotas,
versos irrigados.
O verbo cala,
o solo seca,
racha-se a criança -
migalha de pão dormido.
Fome e chão,
pisa descalça
em brasas da indiferença.
Pele e sangue ressequidos,
aridez de lágrima,
espinho e barro
a maquiar a pele,
manchas de verde e amarelo.
Chora a pátria,
pétrea de matas pálidas,
alopécia de cores,
extensas clareiras.
Terra vermelha
coberta do pó,
rugas no mapa,
pistas de pouso -
Clan-destinos.
Onde o branco,
a pureza,
a promessa?
Traída a terra,
ouro de tolo,
sorriso de icterícia,
parcos dentes
de mastigar solidão.
Céu de anil,
nuvens sanitárias,
homem esquálido
a plantar pesticida.
Traída a terra,
clamor rouco e abafado,
fumaça dos charutos cubanos,
pendurados nas bocas patronais,
sem lei e sem letra.
Traída,
a terra lamenta por seus filhos,
amamentados de esmola,
de enteados cuspindo confeitos,
mordendo,
com presas de ouro,
o amanhã e a decência.
Traída a terra.
Punhal enterrado no seio,
mãe órfã de rebento raquítico.
Abre-se a fenda,
engole o que resta:
homem e praga,
riso e lágrima,
orgulho e carbono.
Num futuro fóssil,
tropical tupiniquim,
semear e colher...
Milagre!
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postado por: Lílian Maial 9:03 PM Comments:
Quinta-feira, Março 08, 2007
CRÔNICA SOBRE O DIA DA MULHER
Lílian Maial
Mais uma vez vem essa comemoração curiosa de Dia da Mulher.
No mínimo curiosa, porque todo dia é Dia da Mulher. Na verdade, o mundo é da mulher. Deus, certamente, é mulher (que me perdoem os homens, mas seu pseudo-reinado nunca existiu ¿ sua glória somos nós...risos).
E você consegue acreditar que um homem criaria outro à sua imagem e semelhança? Sim, talvez num arroubo de vaidade, mas é questionável... a competição seria grande e eles querem tudo só pra eles. Então, chega-se, por simples dedução, a essa indubitável afirmativa de que Deus realmente é mulher.
E querem comparativo maior da perfeição?
Que outro ser existe, que cresce imaginando se multiplicar em mil, para realizar todos os sonhos dos demais seres ao seu redor?
Que outra criatura é capaz de se entregar ao infinito prazer de sorrir ao contato com a água, o calor do sol, ou um beijo nos olhos?
Que outro produto da natureza é plausível de gerar vida através do amor, doando-se integral e incondicionalmente a esse amor, e ainda suportar todas as dores e dificuldades em nome desse sentimento?
Ah, fazer-se bonita pelo simples prazer de se saber admirada.
Fazer-se ágil, pelo simples fato de não conseguir ficar parada.
Fazer-se amada, pelo simples amor que brota em seu peito.
Observem uma mulher, de qualquer faixa etária, de qualquer raça ou credo, de qualquer lugar do mundo.
Verifiquem a delicadeza de seus gestos, a harmonia de seus traços, o brilho de seus olhos, a umidade de seus lábios.
Ao mesmo tempo, sintam seu perfume de batalha, suas mangas arregaçadas e prontas para os desafios, suas pernas torneadas para se abrirem para o amor, a vida e o prazer, mas também para as longas caminhadas que o destino lhe reserva.
Notem sua estatura, nem tão alta que não se curve ante à beleza, nem tão baixa que não se erga em defesa de seus direitos e convicções.
Provem seu sabor de mãe, lembrando brigadeiro, sonho e macarronada domingueira. Seu gosto de proteção, de desvelo, de carinho interminável, de insone guerreira contra vírus e febres, de ridícula disputante de vaga na escola, ou de títulos de campeonatos de natação ou judô.
Ouçam seus gemidos de fêmea entregue e provocante; de feminista, clamando por justiça; de profissional de qualquer área, orgulhosa de suas conquistas e cônscia de seus horizontes. Sua voz de calma e paz, ou seus gritos impacientes de uma TPM fugaz.
Percebam sua doce inquietação no trânsito, disfarçada de auto-suficiência, mas louca para cruzar com um gentil espécime masculino, que lhe poupe esforços, suores indesejáveis e cabelos desarrumados.
Atrevam-se a prever suas atitudes e afundarão num mar de calamidade, de desacertos e de incertezas.
Somos mais que equações matemáticas, reagimos de forma bem mais abrangente e, portanto, indecifráveis.
Não tentem entender as lágrimas que brotam desses olhos. Lágrimas são adornos naturais e apêndices exclusivos, de acionamento automático ao menor balanço dos sentimentos.
Sim, é um ser complexo e, por isso mesmo, fantástico.
É uma criatura apaixonante, decerto, mas não a interpretem como presa fácil, ou vítima das circunstâncias, sob o risco de cometerem o mais grave erro que jamais imaginaram.
São lindas borboletas, sobrevoando os corações, acariciando os egos, demonstrando suas aptidões.
Mas também são dinossauros de patas devastadoras e de luta pela vida, pelos seus objetivos, pelos seus alvos de amor.
Inútil essa contenda entre macho e fêmea pelo poder, pela inteligência, pelo lugar ao sol, posto que são duas metades, a serem completas apenas quando unidas. Ambos são de carne e osso, sentimentos e alma. Sentem dores, sentem prazer, choram, riem, odeiam e amam com a mesma intensidade, enfim, têm os mesmos atributos.
A única diferença é que a mulher os tem simultaneamente. E isso a faz tão especial, tão intrigante, tão diferente e tão maravilhosa.
Súditos, reverenciem-na!
Bajulem-na!
Amem-na!
Papariquem-na!
Glorifiquem seus dias e seus passos.
E sigam-na, porque ela nunca os levaria por caminhos não confiáveis, já que ela sempre vai na linha de frente, pois prefere se ferir a si, que deixar qualquer alvo de seu amor ser atingido por uma única fagulha de dor.
Ser mulher é ser iluminada, é ter a perfeita noção da perpetuação da espécie, da criação das novas gerações, da responsabilidade assumida com o futuro.
Ser mulher é ser linda, mesmo que seus traços não sejam o ideal venusiano de beleza, mas não importa, porque ela resplandece com a aurora, como uma flor rara e estranha, que insiste em ser diferente e cara.
Ser mulher é acumular todas essas tarefas e ainda se munir de aparatos estéticos, loções, cremes, lingeries, novos cortes de cabelo, cores de unhas, silicones e combate às rugas, no intuito de se fazer mais vistosa e atraente para a maior de todas as dádivas que ela poderia almejar: o homem.
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*foto minha com minhas amigas do tempo da escola, todas mulheres MARAVILHOSAS!!!
postado por: Lílian Maial 8:30 PM Comments:
Sábado, Março 03, 2007
postado por: Lílian Maial 9:16 PM Comments:
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