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Cara a Cara - Lílian Maial

Blog pessoal, para divulgação de trabalhos literários.



Sábado, Dezembro 30, 2006

O Rio de Janeiro em Chamas
® Lílian Maial


Quando criança, lembro-me bem dos dias que se seguiam ao Natal. Era comum se sair às ruas, todas as crianças, mostrar os brinquedos novos, andar de bicicleta em grupo, sair de manhã e só voltar para o almoço, para depois sair de novo e retornar ao anoitecer, exaustos, imundos, felizes.

Hoje nossos filhos são criados em apartamentos e em shoppings, mal sabem andar de bicicleta, são limpinhos, quase assépticos, e não possuem a cara rosada e risonha do nosso tempo de molecagens. Os dias seguintes ao Natal se passam em salas de Chat, em mensagens do ¿orkut¿, ou simplesmente no quarto, com os fones de ouvido do novo MP3 ou 4.

O que mudou? O que aconteceu com os valores, com a moral, com o respeito e a bondade das pessoas?
Recuso-me a acreditar que o sistema repressor da ditadura proporcionava uma vida melhor. Não pode existir felicidade sem liberdade. Mas acredito que a repressão, a censura, o medo pudessem ter um efeito inibidor da violência, posto que a maior violência de todas governava.

As drogas, sim, as drogas! O tráfico gerou uma disputa de pontos, uma tentativa dos sem oportunidade de enriquecimento rápido, ilícito, arriscado, porém com poder, fama e usufruto de coisas antes apenas sonhadas entre os de baixa renda. E tudo coincidindo com a abertura política, de comércio (importados), de consumo, a liberação sexual, o lançamento de jovens despreparados e alienados no mercado de trabalho, que converteu-se, de uma hora para outra, na maioria de informalidade, tanto pelo despreparo dos jovens, quanto pela má qualidade do ensino, como pelo pouco incentivo ao investimento nacional na educação, saúde, indústria, comércio e agro-pecuária.

Miséria na terra natal, migração, superpopulação nas grandes cidades, redução da oferta/procura, miséria na cidade, vícios, fome, humilhação, crime.

No entanto, a raiz verdadeira da violência desmedida, do terror, da crueldade reside na quebra dos valores, desde a família, passando pela mídia (a nova escola da vida), até os (des)caminhos, atalhos e percalços da nossa ultrapassada e extremamente remendada legislação.

Sem lei, não há ordem. Qualquer criança testa isso e aprende na carne desde a tenra infância. E a sociedade é uma criança insatisfeita, que testa os poderes de todas as formas, e infiltra todas as camadas com novos conceitos deturpados, todas as vezes que a lei dá brechas.

Nosso Código Penal precisa de uma reformulação urgente, de medidas drásticas, de ser enxuto e preciso, sem margem a interpretações dúbias e a ciladas que os advogados aprendem a driblar ou provocar.

Um julgamento não deveria ser uma encenação de teatro, onde o ator mais tarimbado e mais amigo de diretor ganha o papel principal e leva a melhor. Não é ficção, é realidade. Não são personagens, são vidas!

Agora vejamos um condenado a 444 anos (outro dia deu no noticiário), que só pode ser condenado a 30, e sai por ¿bom comportamento¿ aos 10... Como isso é possível?

Nós trabalhamos no nosso dia-a-dia como condenados! Isso era uma expressão utilizada por um bom motivo: porque os condenados faziam trabalhos diuturnos para seu sustento e para o benefício de comunidades. Hoje, em nosso meio, o que verificamos? Presos em extremos opostos: ou os cheios de regalias, verdadeiros comandantes do crime organizado de dentro de celas de luxo, em oposição a miseráveis acumulados como animais enjaulados, nem sempre por crimes merecedores de tanta punição.

E quem determina isso? Quem fiscaliza? Quem desenvolve projetos? Estão todos largados à própria ¿sorte¿. Vemos facínoras misturados a ladrões. Criminosos reincidentes convivendo com pessoas que cometeram pequenos delitos. E sofrem todo o tipo de humilhação, sevícia e abuso moral, transformando-se eles também em futuros assassinos.

Há que se fazer uma reforma legislativa urgente, uma reforma penitenciária, com a criação de ¿fazendas modelo¿, mas não antros de bandidagem, mas instrumentos para trabalho sustentável, ocupação das mentes, trabalhos comunitários e uma verdadeira reintegração do preso.

Enquanto advogados de matadores impiedosos conseguirem burlar a lei e livrá-los das devidas penas, ou atenuar os infortúnios por trás das grades, essas cabeças continuarão a arquitetar o terror comandando lá de dentro os asseclas aqui de fora, perpetuando o tráfico de drogas, armas, violência e agora o terror.

Ao mesmo tempo que nós trabalhamos feito condenados, os condenados bolam, deitados em suas camas, assistindo a seus DVDs, recebendo parceiros em celas especias, os novos ataques a cidadãos comuns, a policiais civis e militares, apenas por terem sido contrariados, em represália a operações nos morros, ou apenas porque acordaram com vontade de churrasco.

A população precisa entender e se mobilizar para mudar a lei e a ordem das coisas, modificar os valores, não com falsos moralismos e ataques a pessoas de bem, mas com a seriedade que o assunto merece e a ação popular, que recentemente impediu que parlamentares aumentassem seus salários em quase 100%, enquanto que o povo não tem nem 10% há anos.

Não tenho como descrever o que senti ao saber e ver meu Rio de Janeiro em chamas, ônibus incendiados com pessoas comuns, idosos e crianças em seu interior, sem chance de escaparem. Não tenho como detalhar o que me percorreu pela espinha e pelas veias ao me sentir tão vulnerável numa cidade que me viu nascer, e para a qual trabalho com amor e dedicação. Não posso contar o que meu coração chorou ao me colocar noi lugar da mãe que morreu baleada, ao abraçar e proteger seu filho de 6 anos do tiroteio, nem o rapaz de 31 anos, policial militar, recém-promovido a cabo, que foi executado sem razão na Barra da Tijuca.

Precisamos falar, escrever, comentar com amigos, vizinhos, parentes, nos mobilizar para a tomada de atitudes que possam mostrar aos legisladores que exigimos a PAZ!

E é essa PAZ que desejo a todos, pois que é direito da humanidade, independente de raça, credo, poder aquisitivo.

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postado por: Lílian Maial 6:12 PM Comments:



Domingo, Dezembro 24, 2006



É Véspera de Natal!
Pois é, é véspera de Natal!

Num Domingo comum, teria ido à praia, mesmo com o tempo meio lusco-fusco, mas carioca tem pacto sagrado com o sol, então sabemos que, mais cedo ou mais tarde, ele aparece.
Teria tomado meu café da manhã na padaria ao lado do clube, onde fazem o melhor pãozinho na chapa que já provei, de frente para o mar; teria feito sauna, quem sabe uma massagam relaxante, e voltaria para casa bronzeada, cansada, extremamente feliz.

Mas véspera de Natal é complicado, a começar pelo sol, que parece temer mostrar todo o seu esplendor em terras tropicais, e ofuscar o brilho da outra festa, que não a dos pássaros e flores, que não a da glória da vida que se perpetua a cada dia, quer os homens queiram, quer não (ao menos por enquanto).
E também essa obrigação de ceia, de família, de coisa imaculada, que não dura mais que parcas 24 horas, mas que tem todo um ritual atávico.
E ái do pobre coitado que tente driblar a cerimônia!

Eu, por exemplo, esse ano fiz tudo diferente dos anos anteriores, e acabei meio que sem ter o que fazer, vendo todo mundo fazendo alguma coisa.
Fiz meu supermercado com uma antecedência larga, mas hoje me deu vontade de ir lá, me meter naquela muvuca, não sei bem a razão.
Fiz minhas comprinhas de shopping também com prazo bastante folgado, e hoje estou com a sensação esquisita de que estou perdendo alguma coisa por não estar lá.
Cozinhei os pratos típicos da ceia todos ontem, deixei tudo prontinho, e hoje me invadiu uma estanha sensação de que profanei alguma coisa sagrada.
E agora, que não tenho supermercado para fazer, não tenho compras de última hora e nem estou encalorada e engordurada na cozinha, estou aqui na frente do micro, como se fosse uma desocupada, olhando todo mundo amaldiçoando o calor e o ter que fazer tudo isso no mesmo dia, e me pego numa nostalgia, numa situação ridícula de não ter com quem compartilhar o meu doce e precavido ócio de hoje.

O sol apareceu, mas não fui à praia, porque todos os amigos estavam ocupados com a ceia, e praia sozinha é um porre!
Estou com aquela cara de ressaca, sem ter sequer ainda aberto uma garrafa de vinho. Minha avó diria que é "cara de tacho furado embaixo".


Mas enfim, é Natal! E não há lugar para esses sentimentos individuais. É momento (gostemos ou não, queiramos ou não) de se repensar coisas, valores, diferenças, e se buscar soluções, todas regadas a esperança de safra nacional de excelente qualidade.

Então toca o telefone, e uma voz amiga me traz de volta à realidade, de que não estamos realmente sozinhos. Podemos até ter essa solidão ímpar, essa solidão lá de dentro, daquele cantinho do coração que ninguém conhece, nem mesmo nossa mãe, ou nosso cônjuge, ou nosso melhor amigo. Contudo, essa solidão é só nossa, é algo entre a tortura e o prazer, que mergulhamos em determinados momentos, como uma fuga, um porto seguro, entre a realidade e a fantasia, o amparo e o desespero.

Aí toca o telefone e eu já volto para o micro com outra sensação, e já retomo a escrita com novos olhares, e sai de dentro aquele fio de esperança, que me mostra que só depende de mim me erguer e fazer desse mais um Feliz Natal!

Beijos a todos os amigos e leitores, e que neste dia, e em todos os outros, possamos ter a certeza e a lucidez de que está em nossas mãos e em nossa vontade modificar nossas atitudes, nosso ponto de vista e, pq não, o mundo todo!

Feliz Natal!

Lílian Maial

postado por: Lílian Maial 3:45 PM Comments:



Sábado, Dezembro 16, 2006

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Sábado, Dezembro 02, 2006

postado por: Lílian Maial 10:29 PM Comments:



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