Blog pessoal, para divulgação de trabalhos literários.
Sexta-feira, Novembro 24, 2006
CASCA DA LUA
Lílian Maial
Não sei se é lagoa polar,
se é Istambul,
mas o céu impunemente ignora as horas
e deixa nascer um sol miúdo,
de uma Terra elíptica,
onde o mundo congela,
esperando a lua sair da casca
e voar para a noite.
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postado por: Lílian Maial 7:00 PM Comments:
Segunda-feira, Novembro 20, 2006
NEGRA
Lílian Maial
negra a melanina
o pigmento
a raça resistente e bela
negra a força dos pelos
crina e a cabeleira
a noite e a lua nova
negra a profundeza do mar
a pupila dos olhos
a menina
negro é o infinito
o imenso universo
o segundo
negra a morte
o fim de tudo
o princípio
negra eu
desejo e mistério
ébano luminoso
branca eu
acaso genético
coração Zumbi
negro o pensamento
onde se formam as cores
e de onde vem a luz.
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*pelo Dia da Consciência Negra e o fim do racismo subliminar que ainda sobrevive entre os homens.
"O homem não pode falar de amor, enquanto gritar diferenças"
Lílian Maial
postado por: Lílian Maial 1:44 PM Comments:
RESIGNADA
Lílian Maial
o sol beijou a flor
amarela alamanda
eleita do dia
cumpriu seu papel
de enfeitar a varanda
e a alimentar de alegria
despencou no vento
e, mesmo ao solo,
pode-se vislumbrar
as pétalas sorrindo
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postado por: Lílian Maial 12:56 PM Comments:
Domingo, Novembro 19, 2006
LUTO*
lílian maial
Desistir? Jamais!
A perda dói.
As letras não esquecem...
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*homenagem póstuma ao amigo e grande poeta Nel Meirelles
postado por: Lílian Maial 8:26 PM Comments:
Quinta-feira, Novembro 16, 2006
FLORES DO PÓ
Lílian Maial
Vida apressada, angustiada,
absorta em pensamentos pequenos,
dor disfarçada em mau humor,
pouso os olhos no menino, ali, dormindo.
No meio da rua, entre carros, passantes,
cachorros e passarinhos destoantes,
mãozinhas sobre a cama papelão,
agarradinho, inocente, no corpo do irmão.
A mãe sofrida, sentada no chão sujo,
tentando esconder a vergonha e a fome.
À frente o pai, derrotado enquanto homem.
A dor oprimida no peito, o não conseguir engolir,
ver assim alguém tão só,
uma família ¿ flores do pó.
Ah, a cruz! Preguem-me na cruz!
Quero morrer por eles, morrer por mim!
Inerte, covarde, torpe!
Nada a fazer, senão sofrer?
Não tem remédio, senão chorar?
Menino dormindo como o meu,
como os nossos,
sonhando sonhos de criança,
luzes e festa,
brinquedos e paz,
sorvete, banho, banheiro.
Alegria o ano inteiro.
Perdeu o endereço do céu,
Mas espera Papai Noel.
Aquele pai e aquela mãe,
sem teto ou dignidade,
não sabem, da missa, a metade!
Não choram, apenas pedem que a sorte mude
e os ventos tragam a esperança
e o sorriso do menino,
que dorme ali no chão, tranqüilo,
ao relento, desprotegido.
A leoa de dentes arrancados,
o guerreiro sem escudo, sem lança,
sem conseguir defender sua criança...
Olhar vazio, alma apagada,
sem ter mais nada.
Nada a oferecer, senão seu corpo.
Nada a pedir, senão o pão.
E eu, e você, o que fazemos?
Vamos embora, consciência confortada
afinal, nada podemos fazer,
não temos o poder!
Qual nada! Eu posso. Você pode.
Mas é difícil, é cômodo.
Você tem lar.
Eu tenho pão.
Eles é que não...
Lílian Maial
Rio, 20/12/00.
postado por: Lílian Maial 6:07 PM Comments:
Segunda-feira, Novembro 13, 2006
LADAINHA
lílian maial
salvem as baleias
mães sem misericórdia
que hoje na feira faltou vintém
salvam as matas
e as crias se matam
entre gozos e vaidades
salvem o mundo
salve-se quem puder
que a fome dá náusea
e o pai, devoto
retorna da orgia
zangado com o dia
salvem as nossas crianças
que em casa os filhos se assistem sozinhos
que as jantas foram suspensas
que os abraços estão raros
e já não há a bênção
nem beijos de boa noite
salve rainha
mãe de misericórdia
cadê o pai de todos
o fura-bolo
e o mata-piolho?
cadê o toucinho que estava aqui?
o homem comeu!
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postado por: Lílian Maial 8:59 AM Comments:
Sábado, Novembro 11, 2006
ERGUIDA
Lilian Maial
Estou farta de viver encolhida.
Já fui parida duas vezes,
conheço bem os úteros,
e eles não me cabem.
Agora estou erguida,
ereta no pedestal
nascitura de minhas verdades.
Sou minha melhor companhia.
Sou completa.
E ai de quem tentar
novamente
me aprisionar,
mesmo que seja
para minha proteção.
Não, prefiro os riscos,
os becos e as luas
a me perseguirem.
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postado por: Lílian Maial 12:46 PM Comments:
Quinta-feira, Novembro 09, 2006
ARTEFATO
lílian maial
não há arte, nem fato
em meu sapato
a pedra... descarto
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postado por: Lílian Maial 7:21 AM Comments:
Sábado, Novembro 04, 2006
EIS A QUESTÃO...
Lílian Maial
Sei que tenho direito à chance de ser tudo,
já que sou todas.
Sei que mereço a glória de ser tua,
já que sou tanto.
Então por que não caibo na palma da tua mão,
no canto do teu sorriso
e no fundo do teu coração?
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postado por: Lílian Maial 11:37 PM Comments:
Sexta-feira, Novembro 03, 2006
COMO EU
lílian maial
Meus sonhos mudos
não têm mais vozes.
Silentes goles
De devaneios.
Carícias plenas,
Gotas serenas,
Correm na pele
Pelos meus seios.
Minha nudez?
Ela é só minha,
Se não me enxergas
Pelas entranhas.
Dona das manhas,
Onça pintada,
Solta no mato,
Boi de piranha.
Não queiras mágoa,
Nem eu de estátua,
Que na verdade,
Eu sou bem sonsa.
Eu não sou santa
E nem sou tola,
Ou tua rola,
Apenas onça.
Cresci sabida,
Sem lei, nem guia,
Nasci vadia,
pra aproveitar.
Sou hedonista,
Sou alpinista,
Herdeira artista
Do teu cantar.
Já fui cometa,
Arrastei lágrima
na cauda inválida,
Já fui estrela.
De parco brilho,
Saí dos trilhos,
Fui vaga-lume
De outro planeta.
Hoje sou eu,
Que não sou nada,
Menos que nada,
eu sou talvez.
E em minha saga,
Apaixonada,
Sou verme e praga,
Insensatez.
Sou céu e terra,
Sou mar e areia,
Aranha e teia,
Cobra coral.
Se queres muito
Que eu seja tua,
Me prova crua
E sem final.
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postado por: Lílian Maial 4:31 PM Comments: