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Cara a Cara - Lílian Maial

Blog pessoal, para divulgação de trabalhos literários.



Terça-feira, Outubro 31, 2006

BRUXA, INFINITAMENTE BRUXA...
®Lílian Maial


Descobri-me bruxa menina,
Ao perceber-me mulher,
Ao desvendar os segredos todos,
O reconhecimento da fêmea.
Saber das curvas e sinuosidades do corpo,
Conhecer a memória ancestral.

Vi-me bruxa, ao deixar aflorar essa parceira silenciosa,
Apontando o caminho da sensibilidade,
Dos sentidos aguçados.

Percebi-me capaz de vivenciar as experiências,
explorar o corpo suavemente,
sentir cada dobra de pele,
deixar a água percorrer os montes e vales,
entender o prazer,
tomar posse do próprio prazer.

Sou mulher, feita de voltas, montes, circunferências,
Sou doçura e transcendência,
O caminho da profundidade.
Não me pertencem retas ou lanças,
Aprisionamento fálico ou fóbico,
rigidez, frieza e solidão.

Sou a que cuida,
A que cura e suporta,
A que restitui as curvas ao mundo.
Por isso sou bruxa.

Há que dançar e celebrar a colheita,
sentir o pulsar alegre que emana da terra,
cumprimentar as borboletas,
restabelecer a ligação com a Grande Mãe, a Natureza.

Sou bruxa sim,
parte de um maravilhoso sistema encantado,
sem medos ou angústias,
em compasso com todos os elementos.

Sou bruxa, porque me sei mulher.

********

Minha homenagem a todas as bruxas, aquelas mulheres livres, inteligentes, politizadas, donas de sensualidade e conhecimento do corpo e da natureza, barbaramente perseguidas e torturadas pelas sociedades machistas, queimadas cruelmente apenas por ousarem ser o que são: mulheres!

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postado por: Lílian Maial 8:15 PM Comments:



Segunda-feira, Outubro 30, 2006

DRAMÁTICA
lílian maial


Tenho essa tendência ao exagero
Embora nada em mim exceda
O que já não transborde

Sei que reajo em extremos
Apesar de não ter limites
Bem definidos

Tudo em mim vacila
Mas sempre acabo
Me atirando de cabeça

Portanto, arrumem o palco
Acendam os refletores
Abram as cortinas

O show deve continuar!


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postado por: Lílian Maial 9:29 PM Comments:



Domingo, Outubro 29, 2006

ANDANÇAS
Lílian Maial


Ando confusa de nuvens.
Penso doces recheados de teias.
Questiono a sanidade das manhãs.
Quero a liberdade do ventre
E a inconseqüência dos sonhos.

Ando com o cansaço das árvores.
Caminho passos de seqüela.
Questiono a trajetória dos homens.
Quero a paz do mato, o cheiro de hoje,
E a premência das cidades.

Ando irada com as mágoas todas.
Relembro estações e trilhos.
Questiono o vôo dos pássaros.
Quero o grito travado
E as lágrimas que evaporaram.

Ando tanto, sem lugar ou tempo.
Vejo-me finita e crédula.
Questiono a imortalidade da espécie.
Quero o gen, o vintém, qualquer esmola,
E o tempo sonegado pela ilusão de felicidade.

Ando, como sempre andei.
Vaguei.
Melhor andar, questionar, pensar,
Do que querer.
Melhor não ver, não saber, ignorar.
Melhor andar.


Lílian Maial
24/10/06

postado por: Lílian Maial 4:25 PM Comments:



Quarta-feira, Outubro 25, 2006

CARCOMIDO
®Lílian Maial


Um homem se afasta.
Falsa impressão da verdade,
Abismo entre o olhar e o sorriso.
Somem os dedos e as coisas simples.

Um homem deixa que se instale o silêncio.
A palavra conversa com a mudez e o medo.

Um homem chamando um nome.
No rosto, velhos movimentos.
Cada traço, uma deixa.

Um homem espera a coragem,
E a angústia destila seus minutos.
Os ponteiros dos dias parecem tristes.

Um homem se cala de espanto.
Chora a secura e a saudade.
É preciso queimar lembranças.
Pá de cal,
Enterrar questão.


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postado por: Lílian Maial 9:09 AM Comments:



Domingo, Outubro 22, 2006

CANTOS DOS CANTOS DE AMOR
Lílian Maial


CANTO N° VIII



Por onde anda aquele por quem me deixei levar?
Aquele das promessas eternas, da fonte inesgotável de prazer, das noites aquecidas pela luz do olhar singelo?
O que tem almofadas nas mãos, de acarinhar sentidos, de aconchegar certezas, de apertar a carne.
Pastor de um rebanho de palavras desgarradas, obedientes ao cajado dos lábios, que encerram o segredo da minha vida, eu, a amada, a escolhida e benta dentre todas!
O que tem ânsia dos guerreiros cansados das batalhas, por onde insinuo, sequiosa, os braços de repousar e ebulir, e de encontrar a paz e a agonia eterna, sem alças ou grades, envolta nos mistérios de um coração menino.
Eu, tua amada, a primeira e a derradeira, a que deixou sua marca em cada pensamento e em cada paisagem deserta, à tua procura, meu doce eleito!
Aquele, cuja boca selada me sonega os beijos, que me são bálsamo, cujos olhos exprimem o conhecimento da felicidade e dos céus, nuvens onde mil anjos brincam de esconder o amor.
Eu, tua amada, a derramar lágrimas de sofrimento pela ausência de tua voz, a me penitenciar da ousadia de roubar-te o sono, deslizando minha volúpia em tua pele de palha e seda,
amado meu, homem dos meus delírios, abençoado fruto de um pomar de sonhos, que entra nos meus aposentos nas mil e uma noites de sedução, e expulsa a minha castidade e o meu pejo.
Percorre meu corpo e me torna escrava, bebe dos meus licores e me açoita com o vigor e a maldade.
Escolhe-me entre as santas e as madalenas, mulher de desejos e obediências, comando e servidão, para conceder-me, enfim, o indizível prazer de te ouvir vociferar meu nome.

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postado por: Lílian Maial 1:56 PM Comments:



Quinta-feira, Outubro 19, 2006


Sobre-viver
Lílian Maial


Na lembrança de infância
a casa é palafita
entre a vala e o mau cheiro
apenas o sonho
e um vaso sem flores
encantando o dia
qual bosque sem fada.

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postado por: Lílian Maial 6:39 PM Comments:



Terça-feira, Outubro 17, 2006

PULSANDO...
lílian maial


... no peito
na cabeça
nos dedos
entre as coxas


tu estás onde haja sangue
latejante
penetrante
animal


quero-te vira-latas
revirando o lixo
do meu avesso


desde que me ames
sem tempo
sem preço


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postado por: Lílian Maial 8:18 PM Comments:



Segunda-feira, Outubro 16, 2006

O POETA QUE CHORAVA SONETOS
®Lílian Maial



Para ninar poeta toque um sino,
Que o som desse silêncio não faz rima,
Se a música dos sonhos não anima,
Melhor trocar as cordas do violino.

Poeta não tem sono e nem destino,
Qual lua, que desdenha lá de cima,
De estrelas aparadas com u¿a lima
Nas pontas, pelas mãos desse menino!

Se o meu poeta sofre a noite em claro,
E esquece o meu amor, presente caro,
Que as trevas acompanhem seu porvir!

Mas se a saudade bate à tua porta,
Nos sonhos tua musa te conforta,
Enxuga a teu soneto e vai dormir!

.........


postado por: Lílian Maial 8:57 PM Comments:



CIDADE DE DEUS
Lílian Maial



É rotina, no Departamento de Perícias Médicas, onde trabalho, a saída de carro com motorista e Médico Perito, para a realização de perícia domiciliar ou hospitalar, que pode se dar em qualquer bairro do município do Rio de Janeiro.

Naquele dia, eu sairia com o Sr. Antônio, velho companheiro de externas, em seu fusquinha valente, que ele gostava de anunciar como o único que enfrentava qualquer dificuldade. Já éramos antigos conhecidos de muitas saídas a diversos lugares, tínhamos nosso Guia Rex e íamos a qualquer canto, que até o carteiro não achava.

O itinerário fora traçado: iríamos para a famosa Cidade de Deus que, pelo nome, deveria ser abençoada. E, nesse estado de graça, confiando na força da fé e do nosso guia, partimos para o indicado logradouro.

Chegar ao bairro foi fácil, já que é bastante conhecido. O difícil foi achar o lote tal, a quadra tal e, o pior de tudo, o número da casa. Interessante a numeração cifrada, de algum código de alta espionagem, uma vez que não havia ordem crescente ou decrescente (ou ordem alguma), nem pares de um lado e ímpares de outro, ou qualquer outra tentativa de seqüência. Não conseguimos enxergar lógica de uma casa nº28 ser seguida de uma nº131 e, logo após, uma vir uma de nº426. Devia ser coisa da CIA, provavelmente. Que estranho! Estaríamos em campo inimigo ou aliado? A resposta não tardaria.

Como as ruas (ruas?) não tivessem nome e as placas das quadras e lotes não fossem sempre visíveis, fomos nos embrenhando em território estranhamente deserto e esburacado. Era buraco a cada 10 metros de chão de terra batida (nem tão batida). O mais curioso era que, a cada esquina que alcançávamos para dentro da Cidade de Deus, menos vivas almas encontrávamos. E nenhum cristão para dar informação.

Observamos algumas pessoas entrando rapidamente em suas casas e fechando (as que tinham) portas e janelas. Não entendíamos o motivo de tal sutil hostilidade num bairro de nome santificado. Definitivamente a Perícia não tinha boa fama com Papai do Céu.

Seu Antônio começou a ficar preocupado, sem saber que há muito eu já orava. No meio daquela desolação sem números, sem placas, sem pessoas, parecendo sim uma Cidade Fantasma, ao longe avistamos quatro cidadãos caminhando lado a lado, feito cowboys, em nossa direção.

Inicialmente esbocei um sorriso de esperança, afinal, Deus não esquecera sua cidade, nem simples trabalhadores na labuta. Mas logo pudemos observar objetos reluzentes nas mãos dos indivíduos grandes e musculosos, com feições pouco amigáveis. Seriam terços? Bíblias de madrepérolas? Qual...

Seu Antônio, já bastante ansioso, com suor gotejando e um lenço, outrora seco, agora bastante umedecido, saiu do carro. Buzinou feito louco, e começou a gritar ensandecido, para ninguém, que nós éramos da Prefeitura do Rio de Janeiro, e que a DOUTORA vinha agraciar o servidor fulano com uma licença médica, para seu benefício. Perguntou para o espaço vazio se alguém podia ajudar, se alguém o conhecia e podia indicar sua moradia. Não ousou citar a palavra perícia, para não gerar confusão com polícia (sábio Seu Antônio), levando-se em consideração que nossos companheiros pouco amigáveis (já bem próximos), não pareciam simpatizantes da referida corporação.

Depois dele alucinadamente gritar e eu buzinar (cena dantesca), uma senhora piedosa, que provavelmente foi ali morar por ser temente a Deus, possivelmente beata, abriu uma frestinha de janela e gritou que o tal servidor a ser periciado havia falecido na véspera.

A essa altura, os rapazes do Apocalipse já bem próximos, e nós dois, eu e Seu Antônio, com necessidades miccionais acentuadas e, quem sabe, outras indizíveis, resolvemos pacificamente desistir da visita pericial, uma vez que o objeto da perícia não se encontrava de corpo presente, assim como nós, em poucos segundos.

Olhamos um para o outro, sem nada dizer, e o valente fusquinha provou sua coragem, chispando dali o mais rápido possível, com a ajuda de algumas promessas a certos santos protetores.
Um rápido olhar para trás, de relance, revelou sorrisos maliciosos nas bocas de nossos rapazes.

Nesse momento, a palavra boca ecoou em nossas mentes.... Seria aquilo uma boca?

Seu Antônio, suando em bicas, não conseguia achar a saída, e o Guia Rex ali não tinha a menor importância.

Como era a Cidade de Deus, rezamos tanto que este, penalizado com a urgência urinária destes dois fiéis, iluminou a intuição de nosso bravo e suado motorista, e pudemos voltar sãos e salvos para o Departamento.

Ao chegarmos de volta ao órgão pericial, uma breve corrida ao banheiro mais próximo. Nos despedimos alegres com as vidas poupadas, certos de que éramos protegidos de Deus, agora convertidos. Este, decerto nos aconselhara a não retornar à cidade que levava Seu nome, principalmente em áreas circunvizinhas onde são desenvolvidas atividades comerciais envolvendo órgãos da gustação e objetos elaborados com plantas.

Aliás, como bem adverte o Ministério da Saúde, fumar pode causar sérios males à sua saúde. Imagina periciar por lá?

Que Deus nos abençoe!


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postado por: Lílian Maial 8:32 PM Comments:



Quarta-feira, Outubro 04, 2006

SOU EU
Lílian Maial


Sou eu:
seu sonho, seu pesadelo,
seu molho, seu tempero.

Sua fada, sua inimiga
sua amada, sua rapariga.

Sua memória, sua consciência,
seu pecado, sua penitência.

Sua mãe, sua filha,
seu trabalho, sua ilha.

Seu tempo, seu avesso,
sua prosa, seu melhor verso.


17/07/00.
Lílian Maial

postado por: Lílian Maial 5:57 PM Comments:



Domingo, Outubro 01, 2006

VIAGEM I
®Lílian Maial


o pássaro alçou vôo
dentro dele muitos
sonhos pousaram
nas pistas demarcadas
sem permissão da torre


nada havia na caixa preta


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postado por: Lílian Maial 10:50 AM Comments:




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