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Cara a Cara - Lílian Maial

Blog pessoal, para divulgação de trabalhos literários.



Sábado, Setembro 30, 2006

O DIA EM QUE O DEPARTAMENTO DE PERÍCIAS PAROU
Lílian Maial



Era um dia comum no Departamento de Perícias Médicas. Mais um dia como tantos: muitos Servidores acotovelados, com expressões de dor, simpatia, agressividade, cansaço, ou simplesmente inexpressivos; a Coordenadora atarantada, tentando ser gentil e eficiente, dentro de sua posição de ¿marisco¿, entre o mar e o rochedo; a Equipe Administrativa do segundo andar (o dos atendimentos pelos Médicos Peritos) em polvorosa pelo acúmulo de solicitações dos Médicos, da Coordenação, dos Servidores e da Chefia imediata; os Peritos, com inúmeros prontuários por atender, entre admissionais, juntas, inquéritos, BIMs, altas, prorrogações, e tantas outras atribuições, de trabalho contínuo, na tentativa de melhorar a produção individual e coletiva; enfim, um dia normal.

O salão de espera dos Servidores abarrotado, com muitos de pé em atrito direto uns com os outros, pela falta de espaço para todos. O Guarda Municipal, portentoso e ostensivo, fazendo sua ronda abençoada, circulando entre os raros espaços encontrados na multidão.

Tudo corria plenamente, como em qualquer dia de final de mês, ou poderia ser de segunda-feira, ou quem sabe num dos períodos de admissionais de professores. Bem, não importa. A Direção encarrega seus Chefes de produzir. Estes encarregam seus Coordenadores de produzir e fazer produzir. Estes, tentando administrar as situações mais diversas, também tentando fazer a produção crescer e abraçar a demanda. Os Peritos, diante do volume de atendimentos e a quantidade cada vez maior de Servidores chegando, oscilam entre a angústia e o desespero. Nada de mais. Tudo rotina nessas situações.

Pois foi no meio desse ¿caos nosso de todo dia¿ que eles surgiram.
Vieram de não muito longe, sem aviso, e foram conseguindo espaço.
Todos se afastavam, todos se curvavam para ver. Todos queriam saber de tudo.
E eles chegaram. Eram quatro. Tudo deles em quatro. Como se 4 fosse seu número cabalístico.
Ou se 4 fosse um número habitual, como as quatro estações do ano, ou as quatro fases da lua.

Mas eram quatro bebês nascidos juntinhos.
Sim, quadrigêmeos no Departamento de Perícias: dois meninos e duas meninas.
Eram quatro flores no jardim da vida. E quatro gerações testemunhando o amor.
Ali estavam: a mãe e o pai, cada qual exibindo com mais orgulho seu quinhão de felicidade; a mãe da mãe, portanto, avó, carregando um dos frutos do amor de seu maior amor; e a mãe da avó, sim, a bisavó, que nem cabia em si de contentamento, fazendo questão de embalar o quarto rebento sonolento.

E cada um dos quatro de uma cor ¿ bebês monocromáticos: bebê amarelinho, rosa, azul e verdinho ¿ tudo clarinho e combinando, em perfeita harmonia.

No total eram nove pessoas, porque ainda restava o avô que, incrédulo, a tudo observava e sorria.
Eram nove pessoas no Departamento, e apenas a mãe, a Servidora, que veio pegar sua primeira licença aleitamento, que nem precisava de comprovação, tamanho o volume de suas mamas, presumíveis através da blusa, certamente uns dois números acima de seu manequim.

Eles chegaram calmos, apenas o pequeno Gabriel, faminto, inconformado com tantas formalidades, exercendo seu pleno direito de lactente, esgoelando-se solenemente ao farejar seu precioso alimento no colo materno.

E o Departamento parou!
Não houve quem não se rendesse a tal cena comovente, de quatro gerações ali despidas de suas mazelas, ou de seus descaminhos, para ajudar na perpetuação da espécie, para postergar o nome da família, para assegurar a permanência de mais um mês dos bebês junto a genitora.

E ali, no reservado dos bebês, todos vieram admirá-los,
como já se fez em certa manjedoura, desta feita não trazendo incenso ou mirra,
mas votos sinceros de felicidade e saúde.
Veio Médico, veio Coordenador, veio Chefia, veio Servidor.

E, como por milagre, instalou-se um ¿estado de graça¿, uma aura de luz e fraternidade, e todos silenciaram e aguardaram o que lhes fosse possível receber.

E todos trabalharam melhor, sem ordens ou desordens, como se os bebês nos mostrassem que tudo é possível diante do amor e do milagre da vida. Tudo se tolera, quando há sentimento de doação e pureza.

Naquele dia, aqueles quatro bebês ensinaram uma lição de amor, ensinaram que a maior hierarquia e prioridade é o futuro, é para as criaturinhas do amanhã. Não há briga, não há desconfiança, não há rancor, nem animosidades, só há sorrisos e lágrimas de emoção.

Mais um dia no Departamento de Perícias Médicas, mais uma licença de aleitamento, mais uma jornada de trabalho, mais números de produtividade, mas aquele lugar e aqueles corações nunca mais seriam os mesmos.

Aqueles quatro bebês iguaizinhos, multicoloridos, queridos, desfilando gerações, tocariam nossa essência e nos encantariam ainda por mais duas vezes, nas licenças subseqüentes, sempre iluminados e cercados de amor.


E pensar que isso se deu em pleno mês de Maria...



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postado por: Lílian Maial 10:55 AM Comments:



Sábado, Setembro 23, 2006



EM TRANSE
®Lílian Maial



Há muitos olhos nos becos da noite,
que não cansam de sondar meus medos.

Há muito frio no escuro da esquina,
que se esquiva em meus passos trôpegos.

Há muitos gritos no calar da madrugada,
que ecoam em meus ouvidos indefesos.

De tanto perambular e me esbarrar,
a emoção congela a mente
dá nós na garganta,
crava estacas no coração,
sangra sem barreiras.

Sou observada em meu caminho,
à espreita de um falsear,
desculpa pra levantar.

Meu corpo não mais obedece,
segue lunático,
busca a emoção aonde quer que a encontre:
hoje, amanhã, ontem...

Acorda do transe em que se encerra,
para levar-me de volta à mesa,
frágil presa do dia a dia.

Insossa alegria de dias passados,
sem compromisso,
com memória de trajetória
de caminhos por onde nunca passei.

Rio, 23/06/00.


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postado por: Lílian Maial 4:30 PM Comments:



Sábado, Setembro 16, 2006

MESMOS GRITOS
Lílian Maial


tonta diva
profana
mística
grito preso ainda
da janela, o vácuo
das letras,
tentáculos

não importa para quem
já que não há nada
para si
além

gota tímida
escorre entre os dias
esquiva de sonhos

tudo se repete
as dores
as cores
os féretros

escrever por gritar

solo
asas
mar

a
palavra
naufraga
na consciência
intacta
estilhaça aos pés
do egoísmo
do silente afeto
daquele medo
concreto

meu castigo?

poesia


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postado por: Lílian Maial 10:42 PM Comments:



Quinta-feira, Setembro 14, 2006

PROCURA
Lílian Maial


Às cinco da manhã
tudo perde o sentido

a poesia não responde
ao olhar aflito
procurando o vestido

no armário
há menos roupas
que dúvidas

e eu

ainda nua


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postado por: Lílian Maial 8:37 PM Comments:



Quarta-feira, Setembro 13, 2006

RASANTE
Lílian Maial


sobrevoei tua casa
feito morcego arredio

não encontrei brecha
ou fruto maduro

mas sabia que me espreitavas
do teu leito vazio

e a cada vez que te cortavas
com a lâmina
e a palavra


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postado por: Lílian Maial 1:34 PM Comments:



Domingo, Setembro 10, 2006

SO-ÇOBRO
Lílian Maial


Nado e me debato,
luto, como náufraga,
pela superfície.
Mas as palavras afundam meu peito,
feito um cardume de punhais certeiros.

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postado por: Lílian Maial 6:10 PM Comments:



LOBIS
Lílian Maial


todas as janelas fecham-se
ao pôr-do-sol

enquanto meu peito uiva
em plena tarde

chamando a lua


o ouro do fim do dia
não vale o brilho da lágrima

então me apago os olhos
na esperança

da alcatéia

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postado por: Lílian Maial 4:03 PM Comments:



Sábado, Setembro 09, 2006

ESQUINAS
Lílian Maial


Pesa mais a cruz, a cada dia,
nas esquinas,
nos becos,
nas sombras.

Marionetes sem cordas,
pendurados em ilusões,
crucificados ao amanhecer,
nas escolhas que não fizeram.

Bom tempo, mau tempo,
claro e escuro,
ontem e ontem
e ontem.

Hoje passou depressa demais
e já é ontem de novo.

E os pregos já não doem,
e os cravos já não prendem...


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postado por: Lílian Maial 12:20 PM Comments:



Sexta-feira, Setembro 08, 2006

MAUS TEMPOS
® Lílian Maial


Escurece em mim.
Apaga-se o brilho dos olhos
e o rasgo suave do sorriso.
E cai a chuva,
um lamento pelas dores todas,
por esta saudade de polpa
que teve a casca arrancada.

E o tempo se fecha,
como o coração,
desconfortável com outras promessas,
como a boca,
inadequada de outros beijos,
como o cais,
onde atracam barcos que nunca a ali pertenceram.

Entristece em mim
a brincadeira de ser feliz,
a ilusão de algo eterno.
E tão efêmera sou,
quanto letras que ora me brotam
[ervas daninhas]
sementes de dor,
que prefiro enterrar
[e não queimar],
para que germinem mais tarde,
escondidas,
feridas de lembranças.


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postado por: Lílian Maial 6:45 PM Comments:



Quinta-feira, Setembro 07, 2006

LASCA
Lílian Maial


Ergo-me estranha,
sem espelhos,
sem janelas.

Na caverna,
o mau cheiro das entranhas,
vísceras dilaceradas na cozinha.

Estou em peles,
ovelha negra,
lasca de placa tectônica,
instável,
movediça,
primitiva.

A gruta é rude,
o homem é rude,
meio fera, meio fruto do meio.

Acuada,
percorro os espaços,
confiro os trapos e pedaços,
sou eu?

Em meus subterrâneos,
vulcão, lava, erupção.
Na superfície,
magma, rocha, crosta.

Na arrogância da paisagem,
movo-me,
borboleta.


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postado por: Lílian Maial 3:13 PM Comments:



TINTO TANGO
Lílian Maial



O momento é rubro
Como o tinto
da boca carmim.

O sangue ferve
Como o vinho
que desce queimando
[em desejos]

O tango aquece
Como o calor
de lábios ávidos
de vinho
de beijos
de amor.

O tango gira
A cabeça quente
O vinho ferve
A boca rubra...

O peito explode
O pensamento alcança
O amor se jorra
na taça tinta
do teu olhar...
o vinho
o beijo
o tango...

O momento é carmim
A taça é de sangue
O vinho é loucura
O tango é desejo.

A boca rubra
A taça gira
O amor loucura
O vinho excita.

Bebo-te louca
beijo-te tinto
Sorvo-te tango
Amo-te boca
Vejo-me rubra.

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postado por: Lílian Maial 2:59 PM Comments:



Domingo, Setembro 03, 2006

À DERIVA
®Lílian Maial


vazia
sem rumo
apenas com dizeres
a quem interessar possa

conteúdo sorvido
função cumprida
resta como tarefa
boiar à deriva

talvez conduzir a um porto
quem sabe levar mensagem

ou simplesmente morrer na praia
afundando
afogada em talvezes...

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postado por: Lílian Maial 8:30 PM Comments:



Sábado, Setembro 02, 2006

FONTE
®Lílian Maial


em algum lugar
não cabe o todo

há muito mais de mim
em cada poro

ainda há o choro

o consolo
ignoro


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postado por: Lílian Maial 4:02 PM Comments:



CALCANHARES
®Lílian Maial


sonho de Aquiles
teu toque
eqüino

o ponto fraco
na relva
resvala

livre no pasto
teu banquete
é o rabo
.
.
.
.
.
.

postado por: Lílian Maial 4:01 PM Comments:



SIMBIOSE
®Lílian Maial


pequeno beija-flor confuso
veio sugar-me os cabelos molhados

devolvi-lhe seiva viva
escorrendo-me dos olhos

foi quando ele me sorriu cúmplice
e, de seu bico,
alimentou-me de poesia

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postado por: Lílian Maial 11:43 AM Comments:




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