Blog pessoal, para divulgação de trabalhos literários.
Segunda-feira, Julho 31, 2006
A LOUCA
Lílian Maial
A louca
que habita em mim
emergiu
em sua lucidez
e transformou
meu insano mundo.
Hoje a deixo
compartilhar
minha camisa-de-força
e meu copo de vodka.
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postado por: Lílian Maial 5:24 PM Comments:
Domingo, Julho 30, 2006
ALISTANDO-ME
lílian maial
Se és legião,
sou estrangeira,
legionária de brincadeira,
fugitiva,
esquiva,
saliva,
matreira.
Se és desertor,
sou oásis.
Oculto o calor
na sombra da vaidade,
nos versos sem vontade,
na noite sem estrelas,
mato a sede ao bebê-las.
Mas se és guerreiro,
sou a lança,
que atravessa teu destino,
que empala a dor do menino,
empunha a bandeira,
conquista a terra.
Pontiaguda,
enterra no peito geleira
a vontade derretida
de fazer-se beijo.
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postado por: Lílian Maial 9:35 PM Comments:
Sábado, Julho 29, 2006
E AINDA PERCO TEMPO COM POEMAS...
Lílian Maial
Mastigo a boca seca - resquícios de pele,
e sangro a luz do dia com cinzas e respingos.
Há uma lentidão no recitar das ruas,
os carros e pessoas parecem não ter pressa.
Ah! Se eles soubessem da urgência dos dias,
se sofressem os presságios dos poetas...
Bobagem! Poetas são patéticos pensadores de coisa nenhuma!
São chatos e pretensos entendidos de canções.
No entanto, a chuva cai impunemente sobre os telhados sujos,
escorrendo lodo e a solidão de pássaros sem graça,
que não cantam, nem fazem ninho.
Poetas sabem tudo sobre amor em versos,
encantam os tolos com suas rimas ricas,
mas só enfeitam de tristeza as sombras nas paredes.
Na vida, o verde queima e a chuva traz enchentes,
o mar afoga sonhos e estrelas dão insônia,
e a poesia uiva, no vazio,
incomodando os vizinhos vesgos e felizes.
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postado por: Lílian Maial 5:21 PM Comments:
Quarta-feira, Julho 26, 2006
QUARTO E PAREDES*
Lílian Maial
...e se te amo ainda
sabendo-te já sem retorno
remendando sorrisos
suspirando cansaços
aceitando o exíguo gesto
destas mãos sem calos e sem esmalte
onde guardo a ausência de tua pele
e meus dedos de procura
encontram tua fuga
é que trago em mim o mar
e o naufrágio
afundando sem luta
para soçobrar destroços e lágrimas
- solidão nas entrelinhas de meus restos
*poema inspirado no "quatro paredes" de Lau Siqueira.
postado por: Lílian Maial 5:26 PM Comments:
Segunda-feira, Julho 24, 2006
SEM SENTIDO
lílian maial
Nada hoje me faz sentido.
Nada!
Nem teus versos
ou teus remorsos
ou teus sonhos
e nem teus banhos.
Nada hoje me aquece a alma
ou me tira a calma.
Tenho enfado,
coração fiado,
peito enfalanado.
As sanhas são muitas
as febres são altas
e o preço é tamanho
maior que o tombo
de um momento mágico.
Não, nada faz sentido.
Não há verdades
em tardes de Domingo.
Não há rostos
em meu guarda-vestido
ou lembranças
de um único gemido.
Em tudo o que faço
sobrepõe-se esse cansaço.
Os lábios que desejo
estão secos e distantes.
Os braços que me esperam
têm o ranço do sabido.
A sina que se me traça
lembra os bolores
de antigas dores.
Mas isso também não tem nexo
pois adoro fazer sexo
me revigora
me deixa nova em folha.
Então viro tua página
folheio teus cabelos
releio tua fisionomia
até decorar a fantasia
de que tudo está como deveria
e eu é que tenho enxaqueca.
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postado por: Lílian Maial 6:58 PM Comments:
Sábado, Julho 22, 2006
ABSTRATA
Lílian Maial
Na mente
é onde escolho a loucura
do dia,
do verbo,
da vez.
Traço apagado na tela,
natureza adormecida,
água-viva,
medusa,
menina.
Escrevo poema para poucos
(números abstratos)
e sonho
com a rua,
a roupa,
a rede.
Peixe que sou
alada,
calada,
encapada
(pálida escama),
meu destino é mar,
poema de areia,
pó de pedra,
alga e capim.
Mundana,
meu sentimento urbano
é imundo.
Eu sou assim:
abstrata, vazia, mal escrita,
como um rascunho
de mim.
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postado por: Lílian Maial 4:06 PM Comments:
INDIGESTA
Lílian Maial
Meus silêncios os engulo um a um
e a solidão fica entalada,
mal digerida lágrima,
em mais uma noite fria.
Quero suores,
hálitos de entrega,
presença.
Mas a madrugada, vil madrasta,
só me trás os sonhos.
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postado por: Lílian Maial 3:58 PM Comments:
Segunda-feira, Julho 17, 2006
NÓS
Lílian Maial
Pelas pontas,
dobramos e enroscamos,
atamos.
Tudo em nós redunda,
tudo em nós aperta,
tudo em nós amarra.
Laço e fita,
seda e chita,
mansão e palafita.
ISO, isósceles,
selo de garantia
na sorte e no revés.
Ao invés,
sorrimos e choramos,
libertamos nossa voz.
Nessa mata,
madeira de lei,
somos nós.
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postado por: Lílian Maial 10:45 PM Comments:
Domingo, Julho 16, 2006
CHACINA
Lílian Maial
exangues
minhas ilusões anêmicas
inanimadas
esvaem-se em versos
que não coagulam
a palavra não estanca
minha boca pálida
não diz
transfundo-me de ti
e estou pronta
corada
para então
ter o peito lacerado
a poesia rota
truculenta
escoando
livre
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postado por: Lílian Maial 10:39 PM Comments:
Sábado, Julho 15, 2006
ERGUIDA
Lilian Maial
Estou farta de viver encolhida.
Já fui parida duas vezes,
conheço bem os úteros,
e eles não me cabem.
Agora estou erguida,
ereta no pedestal,
nascitura de minhas verdades.
Sou minha melhor companhia.
Sou completa.
E ai de quem tentar
(novamente)
me aprisionar,
mesmo que seja
para minha proteção.
Não! Prefiro os riscos,
os becos e as luas
a me perseguirem.
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postado por: Lílian Maial 8:21 PM Comments:
Sexta-feira, Julho 14, 2006
DOM
lílian maial
tenho esse dom da espera
o maior prazer de todos
aguardar o que se quer
trago essa fome escondida
e a vontade de repetir
o que ainda nem provei
faço essa cena romântica
falo o que quer que eu diga
esboço sonhos de amor
fujo por entre as frestas
finjo que tudo é festa
e vou chorar num canto só.
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postado por: Lílian Maial 2:32 PM Comments:
Quarta-feira, Julho 12, 2006
BECOS
Lílian Maial
nos becos
não cabem dias
ou noites
ou olhos
há ecos
dissidências do sangue
inclemência de latas
curvas por sobre as sombras
silêncios
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postado por: Lílian Maial 9:07 PM Comments:
Terça-feira, Julho 11, 2006
SOMBRA
Lilian Maial
sou o estranho
que mais conheço
sem meio e sem fim
sou meu recomeço
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postado por: Lílian Maial 6:40 PM Comments:
Segunda-feira, Julho 10, 2006
ÁGUA VIVA
Lílian Maial
jogo com as ondas
transparências
levezas
capricho do destino
e queimo ao toque
finjo medusa
petrifico
choro na areia
desidrato
volto pro mar.
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postado por: Lílian Maial 5:38 PM Comments:
Domingo, Julho 09, 2006
Uma Noite qualquer sem Estrelas...
® Lílian Maial
As noites borradas do inverno
não permitem ver as estrelas.
Vem um silêncio de brilhos,
um cheiro de céu desolado.
E então chega a dor,
a lágrima efervescente,
vontade de lembrar o que não foi vivido.
Ânsia de nunca ter morrido.
Escorre e corrói,
não poupa os dias,
as manhãs frescas de sol,
os passeios de brisa no rosto.
As noites nubladas de inverno
não dão guarida aos que sobram.
Implacável rajada de espera,
de um tempo que falta pouco.
E então vem a certeza,
a paz imposta do deserto,
o desembainhar de olhares empoeirados,
a seca de devaneios.
Árida é a madrugada sem ópio.
Em outras estações,
um sopro de promessa ainda embala o engano.
Nada mais triste que uma noite sem estrelas...
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postado por: Lílian Maial 1:01 PM Comments:
CONTAGEM REGRESSIVA
lílian maial
no ventre
contorções de fome
entre as coxas
convulsões de músculos
junto aos seios
uma bomba
que vive em contagem
pelo teu regresso
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postado por: Lílian Maial 12:00 AM Comments:
Sábado, Julho 08, 2006
INDOLENTE
Lílian Maial
Em andrajos
a alma perambula
pela manhã
que boceja
entre gorjeios afetados
e mais uma cigarra
que estourou de cantar.
Não era dia de morrer.
O nascente não sentiu
o lamentar
dos silêncios inesperados.
Não, nada mais incômodo
que partir
sem deixar saudade.
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postado por: Lílian Maial 11:57 PM Comments:
DURMO
Lílian Maial
Concede este negrume
com sede de mato cerrado
de barba crescida
para caber carícias
e dependurar lembranças.
Enrolada em teias de lua,
a noite salpica sorrisos,
e sua uma claridade
que deságua estrelas.
Assim também a manhã,
de canários ariscos,
rolinhas oportunistas
e flores voluntariosas,
contemplando o cio
de sol nascente.
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postado por: Lílian Maial 12:16 PM Comments:
Sexta-feira, Julho 07, 2006
PRETÉRITO IMPERFEITO
® Lílian Maial
agudas esquinas, vultos em
outdoors
passos imersos no passado
rostos estranhos
colo vazio
antiga música a machucar saudade
e um gosto acre-doce do que seria
velho leite derramado
há dias em que as lembranças
não deveriam pular da gaveta
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postado por: Lílian Maial 7:46 PM Comments:
LACRIMA
® Lílian Maial
Profundidades à parte,
ando um tanto rasa de poentes.
Há mais
fog que fogo.
Malditas neblinas, cataratas nos olhos da tarde!
O dia vale o pensamento fosco,
e o homem ainda caminha sobre as águas,
que insistem em brotar pelos cantos...
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postado por: Lílian Maial 5:38 PM Comments:
Quinta-feira, Julho 06, 2006
CARA A CARA
Lílian Maial
Hoje estou de esvaziar garrafas
e ser rebocada de sarjetas.
Perdoem-me os clássicos e parnasianos,
os acadêmicos e venusianos,
mas já estive em todas as eras,
em todas as guerras.
Atirei nas entranhas,
queimei ervas estranhas
e fui
superstar .
E não queria estar na tua pele
e nem na minha alma.
Lílian Maial
postado por: Lílian Maial 9:33 PM Comments: